Kintsugi: as marcas que carregamos

Nem tudo o que sentimos termina quando uma situação chega ao fim. Certos acontecimentos continuam exercendo influência muito depois de terem passado. Uma rejeição pode alterar a maneira como nos aproximamos das pessoas; uma traição pode afetar a confiança; uma perda pode despertar receios que antes não existiam.

O tempo modifica a intensidade de muitas dores. Algumas deixam cicatrizes, regiões de nossa memória e de nossos afetos que se tornam mais sensíveis porque algo importante ocorreu ali.

Costumamos associar restauração à tentativa de recuperar o que existia antes. Entretanto, existem mudanças que impedem esse retorno. Diante delas, precisamos aprender a lidar com o que ficou. Uma antiga técnica japonesa de cerâmica oferece uma comparação interessante para pensarmos sobre isso.

Conhecida como kintsugi, expressão geralmente traduzida como “reparo com ouro”, a técnica consiste em unir os fragmentos de uma peça utilizando laca e realçar as linhas reparadas com pó de ouro ou outros metais.

A origem do kintsugi não é conhecida com precisão. Uma lenda bastante difundida a relaciona ao xogum japonês Ashikaga Yoshimasa, no século XV, embora não existam registros históricos suficientes para comprovar o episódio. De acordo com essa tradição, uma de suas tigelas de chá teria sido enviada à China para conserto depois de se partir. Quando retornou, os fragmentos estavam presos por grampos metálicos. Insatisfeito com o resultado, Yoshimasa teria recorrido a artesãos japoneses em busca de uma solução mais cuidadosa.

A lenda associa esse episódio ao desenvolvimento de um método no qual as fraturas deixaram de ser disfarçadas. Em vez de devolver à cerâmica a aparência original, os artesãos mantinham visíveis os pontos restaurados. Assim, a peça conservava as marcas do dano sofrido.

Essa característica permite aproximar a antiga técnica de algo que conhecemos em nossa dimensão emocional. Também carregamos sinais do que vivemos, embora nem sempre sejam visíveis. Muitas vezes, percebemos seus efeitos somente quando alguma circunstância toca uma região sensível.

Quem sofreu uma traição pode reagir intensamente diante de sinais que provoquem desconfiança, enquanto sucessivas rejeições podem intensificar nossa reação a determinadas atitudes. Nesses casos, parte do que sentimos pode estar relacionada a vivências anteriores.

Ao identificarmos essa ligação, conseguimos distinguir o que pertence ao presente daquilo que foi despertado pelo passado e avaliar com maior precisão o que está acontecendo.

A diferença entre ferida e cicatriz também merece atenção. Uma cicatriz indica que houve uma lesão, embora já não seja a própria lesão. Lembrar, portanto, não significa necessariamente reviver. Podemos recordar uma perda sem retornar diariamente ao desespero dos primeiros dias, assim como uma ofensa guardada na memória não precisa determinar nossas relações posteriores.

A beleza de uma cerâmica restaurada por kintsugi, entretanto, pode conduzir a uma interpretação equivocada. Seria fácil concluir que a peça precisou quebrar para adquirir maior valor e aplicar o mesmo raciocínio às nossas dores.

No kintsugi, porém, o ouro pertence ao trabalho realizado depois da quebra, e não ao golpe que partiu a cerâmica. Da mesma maneira, aquilo que aprendemos depois que somos machucados não transforma em benefício o que nos feriu.

Para o cristão, lidar com essas marcas também envolve admitir que nossos próprios recursos não encerram aquilo de que dispomos. As Escrituras dirigem nosso olhar para o cuidado de Deus. O salmista o descreve como aquele que “sara os quebrantados de coração e liga-lhes as feridas” (Sl 147.3). Ao Apóstolo Paulo, o Senhor declarou: “A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza” (2Co 12.9). Diante de nossas feridas, cicatrizes e fragilidades, reconhecemos que Sua graça também nos basta.