Desde a Antiguidade, diferentes povos recorreram aos mitos para registrar ideias, temores e indagações sobre a existência humana. Deuses, heróis e acontecimentos extraordinários conviviam nessas histórias com questões que despertaram interesse mesmo depois do desaparecimento das sociedades que lhes deram origem. Retomadas pela literatura, pela filosofia e pelas artes, algumas receberam novas interpretações no decorrer dos séculos. Entre elas está o mito de Dédalo e Ícaro, um dos mais conhecidos da tradição clássica.
Na versão narrada pelo poeta romano Ovídio, em Metamorfoses, Dédalo era um artesão de extraordinária habilidade que se encontrava impedido de deixar Creta pelo rei Minos. Sem conseguir escapar por terra ou pelo mar, decidiu buscar uma saída pelo ar. Reuniu penas de vários tamanhos, uniu-as com fios e cera e construiu dois pares de asas, um para si e outro para o filho. Depois de testar sua criação, preparou-o para a fuga.
Antes da partida, orientou Ícaro a manter uma distância segura do mar e do Sol. Próximo demais da água, a umidade prejudicaria as asas; muito acima, o calor derreteria a cera. Entre esses extremos estava a faixa em que poderiam seguir viagem.
Pai e filho deixaram Creta. Dédalo seguia à frente, e Ícaro deveria acompanhá-lo, porém, durante o trajeto, deixou-se levar pela sensação de voar e começou a subir cada vez mais, afastando-se da recomendação recebida. Quanto mais subia, mais se aproximava do Sol, até que o calor derreteu a cera e as penas começaram a se soltar. Sem conseguir continuar o voo, caiu no mar e morreu.
A fuga havia sido planejada levando em conta fatores específicos. Dédalo conhecia os riscos envolvidos e estabeleceu uma altura que permitiria completar o percurso com segurança. O êxito dependia da relação entre o ambiente e a resistência da estrutura construída.
Nos dicionários, equilíbrio é definido como a estabilidade resultante da compensação entre elementos, forças ou tendências. Em sentido figurado, o termo designa moderação e ponderação na maneira de agir. O desequilíbrio corresponde à perda dessa estabilidade, quando se altera a proporção entre as partes e uma delas exerce influência excessiva sobre as demais. Isso significa que os componentes de um conjunto não precisam possuir a mesma intensidade, desde que a relação entre eles preserve sua sustentação. Uma posição equilibrada, portanto, tampouco corresponde obrigatoriamente ao ponto intermediário entre dois extremos.
O exemplo de Ícaro nos permite observar essa distinção. Dédalo não calculou a metade da distância entre a água e o Sol, pois a altura adequada dependia das características das asas e dos efeitos exercidos sobre elas. Importava permanecer na faixa compatível com aquilo que havia sido construído.
O contraste entre pai e filho acrescenta outro aspecto à reflexão. Sujeitos aos mesmos perigos, conduziram-se de maneiras distintas. Dédalo conservou a prudência durante o voo, enquanto Ícaro deixou que o desejo de subir prevalecesse sobre o conselho recebido. No início, ele havia seguido as instruções e avançado dentro da faixa indicada, porém sua conduta mudou quando um impulso adquiriu peso maior do que os riscos presentes. Uma atividade que cumpria sua finalidade terminou comprometida pelo excesso.
Na conduta humana, precisamos avaliar diversos aspectos antes de tomar decisões. A moderação impede que uma única inclinação adquira importância desmedida, enquanto a ponderação favorece um julgamento cuidadoso. Quando concedemos peso exagerado a apenas um fator, corremos o risco de desprezar circunstâncias relevantes para nossas escolhas.
As Escrituras contêm advertências a respeito dos excessos, com um fundamento distinto daquele encontrado no mito. Em Ec 7.15-18, o autor observa que o justo pode perecer apesar de sua retidão, enquanto o perverso desfruta de muitos anos mesmo em sua maldade. Essa constatação antecede a referência à pretensão de ser demasiadamente justo ou sábio, bem como à perversidade e à insensatez.
O ensinamento reúne essas duas advertências. Retidão e sabedoria humanas não garantem que os fatos correspondam às nossas expectativas, assim como a aparente prosperidade dos perversos jamais autoriza a prática do mal. O versículo 18 relaciona ambas ao temor de Deus. Quem teme ao Senhor conhece as restrições da própria capacidade e rejeita a insensatez, sem transformar a cautela em justificativa para concessões morais.
O episódio de Ícaro permanece como ilustração dos perigos de agir sem levar em conta as circunstâncias envolvidas. Eclesiastes amplia a reflexão ao recordar que nem mesmo nossas melhores qualidades nos concedem domínio sobre tudo o que ocorre. Avaliar cuidadosamente nossas decisões e conservar o temor de Deus nos permite proceder com sensatez diante daquilo que escapa ao nosso controle.
Referência
OVÍDIO. Metamorfoses. Livro VIII.

